Sabe aquele momento em que você tenta puxar o ar e ele parece não vir por completo? Não é o cansaço de uma corrida ou a falta de fôlego após um lance de escadas. É algo mecânico, uma sensação de que a “passagem” está estreita, muitas vezes acompanhada de um ruído agudo e estranho ao inspirar. Para quem vive com uma obstrução das vias aéreas superiores, respirar deixa de ser um ato reflexo e passa a ser um trabalho consciente e exaustivo. Como cirurgião de cabeça e pescoço, vejo que o maior desafio não é apenas desobstruir esse caminho, mas identificar o que está fechando a porta. A anatomia dessa região é um sistema de tráfego intenso: por um espaço de poucos centímetros, passam o ar que nos mantém vivos, o alimento que nos nutre e a voz que nos define. Quando algo sai do controle na laringe, na faringe ou na traqueia, o corpo acende alertas que, infelizmente, muita gente ignora por meses. O ruído que não deve ser ignorado Um dos sinais mais claros de que algo está errado é o chamado estridor — um som ruidoso, quase como um assobio ou um ronco alto, que acontece enquanto você respira.
Ele indica que o ar está encontrando um obstáculo. Esse bloqueio pode ter várias origens. Em alguns casos, estamos lidando com o carcinoma epidermoide (um tipo comum de câncer que se desenvolve nas mucosas). O tumor cresce silenciosamente na laringe ou na faringe e, aos poucos, ocupa o espaço por onde o ar deveria passar. Em outros cenários, o problema é funcional, como uma paralisia de pregas vocais após uma cirurgia cervical ou um trauma, onde as cordas vocais “travam” fechadas, impedindo o fluxo de ar. Um cenário comum no consultório Imagine um paciente, fumante de longa data, que chega ao consultório queixando-se de uma rouquidão que já dura três meses. Ele achava que era apenas uma irritação na garganta, talvez um refluxo. Mas, nas últimas semanas, percebeu que não consegue mais dormir deitado; precisa de três travesseiros para não sentir que está sufocando. Ao realizarmos uma nasofibrolaringoscopia — um exame rápido, feito na própria clínica com uma fibra ótica fininha que entra pelo nariz — visualizamos uma lesão vegetante na glote. O diagnóstico precoce aqui é a diferença entre um tratamento preservador, que mantém a voz e a função respiratória, e uma intervenção de emergência, como uma traqueostomia, para garantir que o paciente não pare de respirar.
Além dos tumores: infecções e traumas Nem toda obstrução é crônica. Infecções profundas do pescoço, como os abscessos cervicais, podem causar um inchaço tão súbito que comprimem a via aérea em questão de horas. Da mesma forma, traumas na face ou no pescoço podem desestruturar as cartilagens que sustentam a traqueia. O papel do cirurgião de cabeça e pescoço é atuar como um engenheiro dessa estrutura. Hoje, dispomos de procedimentos minimamente invasivos, como o uso de laser para remover pequenas obstruções ou dilatações endoscópicas, que evitam grandes cortes externos e aceleram a recuperação. Em casos mais complexos, recorremos à cirurgia reconstrutiva, utilizando tecidos do próprio paciente para refazer o canal respiratório. O que observar? Se você ou alguém próximo apresenta os sinais abaixo, a avaliação com um especialista não deve ser adiada: Rouquidão persistente por mais de 15 dias. Dificuldade ou dor para engolir (disfagia). Sensação de “bola na garganta” que não melhora. Respiração ruidosa (estridor).